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Marca Rotermund sai do mercado após 148 anos

 

Gráfica Rotermund foi fundada, em 1877, em São Leopoldo e ficou famosa pela produção de agendas. Sua trajetória mostra o empreendedorismo e a visão de futuro de Wilhelm Rotermund

A coleção de 2026 tem referência na arte e na cultura brasileiras | Foto: Reprodução

Na semana passada foi divulgada a informação de que os produtos da marca Rotermund (agendas, planners, livros-caixa) sairão de circulação. A notícia causou consternação junto aos leopoldenses, uma vez que a gráfica faz parte a História da cidade, que celebrou em 2024 os 200 anos da Imigração Alemão no Brasil. As últimas unidades foram produzidas em novembro de 2025. Famosa pelas agendas de papel, a Rotermund também era uma das marcas mais tradicionais do Brasil no setor.

O motivo da descontinuidade foi a não renovação do contrato para uso da marca, produção e distribuição por parte da Estação Gráfica, que em 2020 havia assumido as operações industrial e financeira. Em 2024, quando começava a transição também da parte comercial, a enchente inundou o parque gráfico bairro Rio dos Sinos e a Estação Gráfica precisou recomeçar, mantendo a produção da linha de produtos Rotermund. O diretor comercial da Estação Gráfica, Conrado Andrade, explicou que a continuidade se tornou inviável devido ao imbróglio jurídico que envolve a marca após o falecimento de Renata Rotermund, bisneta do fundador e que atuava no setor comercial.

Cadernos de anotações, calendários de parede e de mesa, blocos de notas e as tradicionais agendas integravam a linha de produção. Em 2020, a Associação Brasileira da Indústria Gráfica reconheceu a Rotermund como a gráfica mais antiga em atividade no país. Conrado destacou que há muita vontade em permanecer com a marca, devido ao envolvimento emocional. “Meu pai e meu avô trabalharam na Rotermund”, disse.

Quando celebrou 140 anos, em 2017, a Rotermund mantinha cerca de 100 empregos diretos e indiretos em uma fábrica de 2,5 mil metros quadrados, no Morro do Espelho, em São Leopoldo.

Trajetória histórica

A história de Wilhem Rotermund está contada no livro “Wilhelm Rotermund Seu Tempo, Suas Obras”, bibliografia escrita pelo historiador Martin Dreher em 2014 e publicada pela Ediotra Oikos. Rotermund chegou a São Leopoldo, ao lado da esposa Marie Brabandt, em dezembro de 1874. Formado em Teologia e doutor em Filosofia, o imigrante era pastor luterano, professor e jornalista. No Vale do Sinos, desempenhou papel importante como líder religioso e comunitário, além de fundar uma das mais tradicionais indústrias gráficas do Brasil.
Rotermund introduziu em sua comunidade uma espécie de ensino obrigatório e investiu na formação escolar. Logo percebeu uma carência: a falta de livros didáticos. Em 1877, abriu a Livraria Evangélica W. Rotermund. Inicialmente, os livros eram importados da Alemanha. Pouco tempo depois, passou a editar as próprias obras. Rotermund publicou, por exemplo, uma cartilha voltada à melhoria da pronúncia do português nas escolas da imigração.

 

Gráfica Rotermund foi construída onde hoje fica o Tabelionato Castellan | Foto: Elizabeth Renz
Na foto, o pastor Rotermund está em frente à empresa | Foto: Reprodução

Como jornalista, foi redator do jornal Der Bote (O Mensageiro), de São Leopoldo. Em 1878, adquiriu o parque gráfico da publicação. Posteriormente, fundou e editou o jornal Deutsche Post (Correio Alemão), que circulou em língua alemã entre 1880 e 1928.
Com a herança deixada pelos pais, em 1891, Rotermund investiu em novos equipamentos e ampliou a oficina gráfica. A sede cresceu, vendedores passaram a percorrer as colônias e, das prensas, saíam livros, jornais e materiais escolares.

Em 1915, a empresa foi reorganizada. A esposa Marie e o amigo Erich Utpott ingressaram como sócios da Rotermund & Co. A gráfica passou a produzir, em 1923, as agendas que fizeram parte da vida de gerações de brasileiros.

Wilhelm e Marie vieram ao Brasil com a intenção de permanecer pouco tempo, mas o pastor voltou ao país de origem apenas duas vezes, em visita. Fez questão de se naturalizar brasileiro, em 1887. Morreu em consequência de câncer de pele, em São Leopoldo, em 5 de abril de 1925.
A família seguiu no negócio. A indústria, fundada ainda no Império, sobreviveu a revoluções, a duas guerras mundiais, a mudanças de regimes políticos e a sucessivos planos econômicos. Em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, ficou proibida de imprimir livros didáticos ou jornais em alemão.
Quando completou 140 anos, em 2017, a Rotermund mantinha cerca de 100 empregos diretos e indiretos em uma fábrica de 2,5 mil metros quadrados, no Morro do Espelho, em São Leopoldo.

 

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