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Tarifaço de Trump gera reação de lideranças empresariais do Vale do Sinos

Segmento de artefatos de borracha, exportador indireto, pode ser um dos impactados 

A imposição de uma tarifa de 50% sobre produtos exportados do Brasil para os Estados Unidos a partir de 1º de agosto, anunciada pelo presidente norte-americano Donald Trump, acendeu o alerta em diversos setores produtivos do Vale do Sinos. A medida, comunicada por meio de uma carta enviada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva na quarta-feira (9), provocou reações de entidades empresariais e industriais da região.

A justificativa de Trump para o tarifaço inclui críticas ao sistema judiciário brasileiro, especialmente em relação ao ex-presidente Jair Bolsonaro, réu no Supremo Tribunal Federal por tentativa de golpe de Estado, alegando ainda ainda suposta censura em plataformas de mídia social dos EUA. Também mencionou um inexitente déficit comercial com o Brasil — na realidade, os Estados Unidos têm superávit na balança comercial bilateral.

Indústria metalmecânica em alerta

Para o presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico e Eletrônico do RS (Sindimetal RS), Sergio de Bortoli Galera, a tarifa adicional representará um duro golpe. “Temos várias empresas que exportam para os Estados Unidos produtos manufaturados com alto valor agregado. Os 10% já impactavam, e agora, com 50%, será ainda mais grave”, afirma. Galera lembra que máquinas agrícolas e armas — itens produzidos por indústrias da região — estão entre os produtos afetados.

O dirigente defende uma saída diplomática para o impasse. “É hora de sentar à mesa e negociar. A  diplomacia precisa atuar para se chegar a um consenso”, observa. O Sindimetal RS representa cerca de mil indústrias em 35 municípios do estado, incluindo São Leopoldo – que também sedia o Sindicato -, Novo Hamburgo, Sapucaia do Sul, Campo Bom e Sapiranga.

Segmento de borracha também será afetado

Outro segmento fabril que sentirá os efeitos da medida é o de borracha. São Leopoldo é sede de várias fábricas que atuam na área e também sedia o Sinborsul – Sindicato das Indústrais de Artefatos de Borracha do Rio Grande do Sul. A maior parte atua de modo indireto para o mercado norte-americano por fornecer peças para empresas exportadoras, como de equipamentos e máquinas agrícolas e automóveis. O  empresário Gilberto Brocco avalia que os clientes podem buscar alternativas mais baratas no mercado interno deles. Apesar do cenário, Brocco acredita que o tarifaço de Trump não se concretizará, classificando-o como uma medida insustentável.

Exportações de São Leopoldo

Dados da Secretaria de Comércio Exterior apontam que, entre janeiro e junho deste ano, São Leopoldo exportou US$ 257,8 milhões em produtos — sendo US$ 181 milhões destinados ao mercado norte-americano. Os principais itens embarcados são armas, ferramentas pneumáticas e hidráulicas, e partes de motor, todos integrantes do setor metalmecânico.

A depender do desfecho das tensões comerciais, a região pode enfrentar mais um momento desafiador.

Equilíbrio nas relações comerciais

O presidente da Associação Comercial, Industrial, de Serviços e Tecnologia de São Leopoldo (ACIST-SL), Daniel Klafke, considera a decisão norte-americana prejudicial às cadeias produtivas. “A medida afeta setores estratégicos do Brasil, como aço, alumínio e agronegócio. Além de comprometer o fluxo comercial, desorganiza cadeias globais”, destaca. No entnato, o dirigente diz que é preciso que o Brasil também reveja suas posturas. “Temos políticas protecionistas e, por vezes, um discurso antiamericano que não contribui”, aponta. Para ele, é preciso defender os interesses nacionais com firmeza, mas sem radicalismos.

Afronta à soberania

O vice-presidente da Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Novo Hamburgo, Campo Bom, Estância Velha, Dois Irmãos e Ivoti (ACI-NH/CB/EV/DI/IV), André Momberger, considera a atitude de Trump uma afronta à soberania brasileira. “Reclamar do STF e do tratamento a Bolsonaro? Nunca vi nada parecido”, declara.

Na avaliação de Momberger, se a tarifa de fato entrar em vigor, os danos serão severos. “Mesmo que as exportações para os EUA representem apenas 2% do PIB, o impacto em setores como agro, metalmecânico e calçadista será expressivo. Pode inviabilizar negócios”, aponta. Ele, porém, acredita que a medida será revertida. “Haverá pressão de todos os lados. Não tem cabimento o Brasil ser o segundo país mais tarifado do mundo, atrás apenas da China”, conclui.

Sistema FIERGS: negociação e mediação

O Sistema FIERGS entende que não há fato econômico que justifique a elevação das tarifas, que ameaça a competitividade das aproximadamente 10 mil empresas brasileiras que exportam para os EUA. Há muitos anos, a balança comercial entre os dois países é superavitária para o lado norte-americano. Na visão do presidente Claudio Bier, se mantida, a mudança ameaça empregos e a operação de muitas indústrias.

“Acredito que o presidente Trump não venha a exercer esses 50% anunciados. Em casos parecidos com outros países, ele acabou negociando. Por isso, o caminho é a mediação, a conciliação”, pontua Bier.

Os Estados Unidos são um parceiro comercial estratégico para o Rio Grande do Sul, ocupando, em 2024, a segunda posição entre os principais destinos das exportações gaúchas, com mais de US$ 1,8 bilhão exportados no ano. Produtos industrializados como químicos, máquinas, alimentos processados, calçados e couro compõem grande parte dessa pauta. “Medidas dessa natureza afetam diretamente a previsibilidade e a estabilidade das relações comerciais, comprometendo a competitividade da indústria brasileira”, destacou.

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